- Qual sua percepção sobre esses dias na Colômbia? Como se desenvolve a luta de classes no país, pelo que você pode observar?
Pude ver muita mobilização e ação das forças anticapitalistas da cidade e do campo, além do movimento estudantil.
- A violência estatal se faz presente nas cidades?
Sim.Há muitos policiais nas ruas, me
parece que a polícia é subordinada ao Exército e funciona como uma
Guarda Nacional. Talvez por isso os camaradas colombianos tenham tido
muito cuidado com nossa segurança, os estrangeiros que ali estávamos,
principalmente com os europeus. Nós brasileiros, e outros
latino-americanos, nos confundíamos com os colombianos. O Estado
colombiano é um estado militarizado, e as burguesias o olham como modelo
de segurança publica.
- A Marcha Patriótica abarcou que setores da sociedade?
Indígenas, afrodescendentes, mulheres,
estudantes, camponeses e outros. Nas cidades ocorre o problema da
criminalização e perseguição das lideranças sindicais, além da cooptação
de parte do movimento sindical urbano. A CUT, central unitária dos
trabalhadores, está cooptada pelo governo, o atual vice-presidente foi
do movimento sindical. As medidas de impacto, que prometem emprego,
habitação e consumo, conseguem confundir uma parcela das classes
trabalhadoras urbanas.
- Quais as principais reivindicações da Marcha? E os encaminhamentos por ela tirados?
A Marcha aponta para a solução dos reais
problemas econômicos das grandes massas trabalhadoras colombinas, a
ampliação de direitos sociais, o fim da política privatista como a
expansão do ensino privado e a demarcação das terras indígenas. Além
disso, pede o fim das discriminações de todo tipo, liberdade para os
presos políticos, respeito aos Direitos Humanos, a construção de
habitações populares e a remoção de famílias das regiões de risco, além
da ampliação dos serviços médicos, de transportes, o crédito ao pequeno
agricultor.
Há ainda a cobrança de uma solução
política para o conflito colombiano e o reconhecimento das FARC-EP como
força beligerante. Somado a tudo isso o pedido de retirada das bases dos
Estados Unidos e o fim dos acordos militares da Colômbia com o
imperialismo.
- De que forma o capitalismo brasileiro está presente na Colômbia?
Através de um acordo militar, o Brasil
vem fornecendo armas como os aviões Tucano às Forças Armadas
colombianas, que utilizam o equipamento para assassinar trabalhadores.
Há ainda acordos e troca de informações nas áreas de segurança, como
entre o Estados do Rio de Janeiro e as cidades de Medellín e Bogotá.
Basta ver a proliferação das milícias no
Grande Rio, e grupos de extermínio na Baixada Fluminense. São exemplos
desta mesma "política" de segurança que é aplicadas lá. Não há ausência e
sim conivência do Estado com estes grupos, tanto lá quanto aqui.
Pelas informações divulgadas na
imprensa, podemos saber ainda de contratos com empresas brasileiras e
muitos acordos entre os empresários dos dois países para expandir os
interesses comuns e fortalecer ambas as burguesias.
- Houve algum tipo de repressão ou represália? E intimidações de forças paramilitares?
Sim. Enquanto estivemos lá um dirigente
da Marcha Patriótica desapareceu, e pelo que sei continua desaparecido.
Além disso, assassinaram um dos seguranças do camarada do Partido
Comunista Colombiano, o Carlos Lozano.
- De que forma o PCB pode contribuir para a luta por paz com justiça social na Colômbia?
O PCB possui um longa tradição
internacionalista. Roberto Morena,David Capistrano, Dinarco Reis e
outros saíram do Brasil para lutar na Guerra Civil Espanhola contra os
fascistas. De lá lutaram na Resistência Francesa. O nosso partido esteve
na linha de frente contra o envio dos soldados brasileiros à Guerra da
Coréia. Temos ainda nossa participação na solidariedade ao Vietnã, Cuba e
Nicarágua.
Agora, na questão colombiana, não
podíamos estar de fora, mesmo que custe a imprensa burguesa nos acusar
por conta de nossa solidariedade ao povo colombiano, como acontece
muitas vezes. Estamos construindo com outros segmentos a Agenda
Colômbia-Brasil, estamos lutando para articular os diversos segmentos
para sensibilizar a opinião publica a buscar uma solução política para o
conflito colombiano, estamos de corpo e alma com a nossa militância na
solidariedade internacionalista ao povo colombiano.
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