
Mapa obtido pelo Brasil de Fato mostra que o maior projeto de minério do mundo, o S11D, já estava projetado na década de 1980
21/10/2013
Márcio Zonta,
correspondente no Pará
A
mineradora Vale prepara outro Programa Grande Carajás. A empresa vai
explorar a partir dos próximos anos uma jazida de minério de ferro
considerada a maior do mundo na Serra Sul de Carajás, no Pará.
O
projeto conhecido como S11D, já em fase de implantação, será o maior
investimento de uma empresa privada no setor mineiro no Brasil. São 40
bilhões de reais destinados à nova mina, usina e logística, que envolve a
expansão da Estrada de Ferro de Carajás – EFC e a ampliação do Porto de
Itaqui, em São Luis (MA).
Em 2016, o Projeto Ferro Carajás S11D
terá uma estimativa de extração de 90 milhões de toneladas métricas de
minério de ferro. A quantidade preenche 225 navios conhecidos como
Valemaz, o maior mineraleiro do mundo.
Assim, a Vale passará a
explorar na Serra de Carajás, com o Projeto de Ferro Serra Norte,
efetivado desde 1985 e o S11D, 230 milhões de toneladas métricas de
minério anualmente. A produção atual é de 109 milhões de toneladas por
ano.
Embora a mineradora trate o S11D como uma novidade e parte
da imprensa nacional frise o empreendimento como a redescoberta de
Carajás, a exploração da Serra Sul estaria há muito tempo nos planos da
Vale.
É o que denota um mapa (veja abaixo), ao qual a reportagem do Brasil de Fato teve
acesso, elaborado pela então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) – antiga
estatal – em 1984, onde o plano de extração do corpo mineral da parte
sul da Floresta Nacional de Carajás já está presente.
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Plano
de extração do corpo mineral da parte sul da Floresta Nacional de
Carajás já está presente em mapa de 1984. Arte: Marcelo Cruz
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Para
especialistas no assunto, o mapa evidencia ainda com mais clareza a
escandalosa privatização fraudulenta da Vale, e aponta para um dos
maiores saques de minério do mundo.
“A Vale sempre falou nesse
projeto, a empresa sabia de sua capacidade antes mesmo da privatização”,
ressalta Frederico Drummond Martins, analista ambiental, do Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, responsável pela Floresta
Nacional de Carajás.
O novo velho projeto
No
Relatório de Impacto Ambiental do Projeto Ferro Carajás S11D, a Vale
menciona que os trabalhos de pesquisa realizada na jazida mineral da
Serra Sul tiveram início no final dos anos de 1960. Porém, o documento
cita que foram entre os anos de 2003 e 2007, que se aprofundaram os
estudos no bloco D, do corpo S11.
Segundo a notificação, somente
em 2008 o resultado da análise das amostras indicou uma reserva de
minério lavrável de um montante de 3,4 bilhões de toneladas de minério
no local.
Porém, para Frederico, muito antes disso a mineradora
teria conhecimento da quantidade de minério na região a ser futuramente
explorada. “Não só a empresa, mas o governo brasileiro também sabia. Na
época da privatização a Vale já possuía decreto de lavra para a Serra
Sul”, denuncia.
As obras para o ramal ferroviário estendido da
EFC até a jazida da Serra Sul, conseguido há pouco pela Vale, numa
licença junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (Ibama), é apontado no mapa de 1984, e citado na
legenda do gráfico como “Ramal Ferroviário Projetado”.
Dessa
forma, o mapa aponta que existia uma pré-concepção de exploração da
S11D, ressaltando ainda mais a espoliação que significou a privatização
da Vale.
Patrimônio público
Em 1997, a
mineradora foi incluída no Plano Nacional de Desestatização (PND), uma
política implantada pelo presidente em exercício Fernando Henrique
Cardoso (PSDB), que visava privatizar 70% do patrimônio nacional para
pagamento da dívida brasileira.
A mineradora foi vendida por R$
3,3 bilhões de reais. O valor estimado na época do leilão era de R$ 92
bilhões de reais, ou seja, valor 28 vezes maior do que o que foi pago
pela empresa.
Porém, o critério de avaliação do valor da
mineradora escolhido pelos bancos, entre eles o Bradesco, considerou
apenas o fluxo de caixa existente no momento da aquisição, sem levar em
consideração o potencial das jazidas processadas da Serra Norte e o
imenso poderio da reserva mineral da Serra Sul, estimado em 10 bilhões
de toneladas de minério.
“Esse projeto de novo não tem nada,
inclusive quando compraram o subsolo da Serra de Carajás na privatização
eles já tinham conhecimento desse tanto de minério, o mapa é claro e
mostra isso. É o maior saque de minérios do mundo!”, indigna-se Raimundo
Gomes Cruz, sociólogo do Centro de Educação, Pesquisa e Apoio Sindical
(CEPASP) no Pará.
Por que agora?
Estudos
geológicos apontam que a Serra Sul tem potencial maior do que a vizinha
Serra Norte, onde já está localizada a maior mina de ferro do mundo.
A
exploração do S11D será apenas uma parte das 45 formações de minério de
ferro que compõem a cordilheira Serra Sul. Ainda mais outros corpos, A,
B e C futuramente serão explorados pela mineradora.
O projeto
S11D constante nesse mapa histórico da antiga estatal CVRD, sairia num
momento estratégico do papel para se tornar realidade.
Conforme
explica o professor de economia da Universidade Federal Fluminense,
Rodrigo Santos, o mercado de minério de ferro é extremamente
concentrado, de modo que mais de 2/3 da oferta global da matéria prima
depende da Vale, e das mineradoras anglo-australianas BHP Biliton e da
Rio Tinto.
“A Vale, nesse caso, vem apostando no S11D como seu
principal projeto, porque esse tem potencial para ampliar suas vantagens
como líder nesse mercado”, avalia Rodrigo.
Ademais, em tempos
de espionagem dos Estados Unidos e Canadá ao Ministério de Minas e
Energia (MME), o S11D, seria inclusive uma das preocupações dos
concorrentes, pois demarcaria ainda mais a liderança do mercado global
da Vale frente a Rio Tinto e BHP Billinton, respectivamente segunda e
terceira no ranking mundial de extração mineral.
“Considerando
essa estrutura oligopólica e as características dos mercados de bens
minerais, o controle e substituição de reservas de classe mundial, como
Carajás, constitui uma das principais estratégias de competição”,
explica Santos.
Segurança Nacional?
A
região de Marabá, da qual a Serra de Carajás fazia parte na década de
1980, era submetida ao Grupo Executivo das Terras do Araguaia –
Tocantins (Getat), criado em 1980 pelo regime militar com a finalidade
de executar as medidas necessárias à regularização fundiária no sudeste
do Pará, norte de Tocantins e oeste do Maranhão.
O órgão era
vinculado à Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional. O mapa
elaborado pela Vale em 1984, continha informações territoriais do
Getat.
Flavio Moura, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e
historiador da região, relata que o Getat era uma saída militar para
controlar o conflito pela posse de terra na região, além de garantir a
estratégia ditatorial da época de implantação dos grandes projetos na
Amazônia. “O Estado militarizado foi o testa de ferro do capital nessa
parte do país”, diz.
Ao observar o mapa, Moura não tem dúvida:
“Esse material nos dá a imensidão do controle dos recursos naturais da
região, por isso vemos por que a Guerrilha do Araguaia foi exterminada e
qualquer forma de movimentos sociais é combatida pela aliança
militar-empresarial, como foi o Massacre de Eldorado dos Carajás”,
define.
A reportagem do Brasil de Fato submeteu
o mapa, também, a um topógrafo aposentado do Exército de Marabá.
Humberto Martins Fonseca relembra que a região de Carajás sempre foi
alvo de maior proteção e intervenção militar.
“A ideia que
passavam para gente era que tinha muita riqueza no subsolo de Marabá,
por isso teríamos que defender esse patrimônio”.
Passados 30
anos do programa de exploração de minério no Pará, Fonseca reflete.
“Hoje vemos no que deu, na verdade não estávamos protegendo as riquezas
de ninguém, somente de nós mesmos, porque estamos entregando tudo e
ficando sem nada”, lamenta.
Foto: Agência Vale

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