quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O cristianismo, o catolicismo e o comunismo

 “[a] unidade na real luta revolucionária das classes oprimidas por um paraíso na terra é mais importante que a unidade na opinião proletária sobre o paraíso no céu” Lênin


Embora o catolicismo e as igrejas protestantes reivindiquem a herança do cristianismo, o cristianismo dos primeiros cristãos, que seguiam obviamente mais de perto os ensinamentos atribuídos a Cristo, já não existe há muitos séculos. Dessa forma, o cristianismo que talvez exista em nossa sociedade é residual.

Não se sabe muito sobre Cristo, mas sabemos algumas coisas sobre o cristianismo. As histórias contadas nos livros do Novo Testamento nos contam pouco sobre Cristo, pois são cópias das histórias que já circulavam há séculos no mar Mediterrâneo. Diversos filhos de Deus, nascidos de virgens, que foram mortos e ressuscitaram eram cultuados nessa região desde muito antes do tempo a que se atribui a existência de Cristo, sendo os mais famosos Osíris e Mitra. Contar essa mesma história foi uma decisão da Igreja Católica no século IV, quando estava nascendo o catolicismo sob as barbas do imperador romano. Obviamente, foi escolhida uma história de fácil aceitação em amplas regiões do domínio romano, e comprovadamente de sucesso, uma vez que vários povos a reproduziam e espalhavam embora modificando o nome principal.

Sobre as comunidades cristãs sabemos bem mais. Os cristãos, segundo os Atos dos Apóstolos, mas também segundo alguns de seus inimigos, viviam em comunhão, não somente espiritual, mas também de bens de uso. Faziam as refeições em comum, ajudavam seus doentes, as viúvas e os órfãos etc., em uma época em que o destino normal destes era a miséria. Aceitavam em sua comunidade qualquer um, mesmo que fosse escravo ou mulher, contanto que o mesmo dispusesse todos os seus bens (se os tivesse). As propriedades eram vendidas e revertidas para a comunidade e não havia um plano de produção em comum, pois se esperava o Apocalipse para breve. Tratavam-se como irmãos, de forma que o termo “senhor” muito provavelmente não seria bem tolerado por Cristo ou pelos fundadores do movimento cristão. A palavra “igreja” tem origem no grego Eclésia, que podemos traduzir por assembléia. Eram realmente assembléias, com poder, pois elegiam seus bispos e diáconos, ou seja, ao contrário da Igreja Católica, as primeiras comunidades cristãs eram democráticas.

Nota-se duas coisas – primeiro, que o cristianismo dessa forma não existe mais, a não ser talvez na mais radical das comunidades hippies. Segundo, que esse cristianismo era uma forma de comunismo, mas não o comunismo de Marx e sim o comunismo do senso comum, ou das anedotas, que imaginam ou descrevem o comunismo como igualitário, inimigo da prosperidade material e marcado por um voto de pobreza de seus adeptos.

O cristianismo certamente não chegou ao século IV exatamente como em seus primeiros tempos, mas foi nessa altura, sobretudo no Concílio de Nicéia, que recebeu um golpe fatal. A partir de então o Império passou a reconhecer a Igreja oriunda desse Concílio, que logo se tornou a religião oficial do Império Romano, por decisão do Imperador Constantino, e obrigatória, tanto para o terço de cristãos quanto para os dois terços de não-cristãos do império. A democracia dos primeiros tempos foi completamente substituída pela hierarquia religiosa romana. Até em alguns nomes, a começar pelo título de Sumo Pontífice, existente muito tempo antes de nascer o cristianismo. O comunismo inocente foi substituído por estruturas de caridade, como hospitais e orfanatos e os que insistiam em viver em comunhão acabariam, com o passar dos séculos, sendo isolados em monastérios e conventos, ou mesmo perseguidos pela Igreja.

Embora se repita com certa freqüência que “Cristo era um comunista”, e isso possa atrair apoios e votos aos comunistas contemporâneos, nossa obrigação é esclarecer as profundas diferenças entre o comunismo de Cristo e o comunismo de Marx. O cristianismo propunha a igualdade na pobreza, a doação de todos os bens terrenos. Já o marxismo propõe a coletivização somente dos meios de produção, ou seja, dos bancos e similares, das grandes indústrias e da grande produção rural. Está completamente fora dos planos marxistas tocar nos bens de uso, nas casas, nos carros, nas pequenas propriedades etc. O cristianismo era hostil às pessoas dos ricos, enquanto o marxismo nunca o foi, tendo sido o próprio Marx de família de algumas posses e tendo Engels, seu companheiro de lutas, herdado a fábrica da família.

O cristianismo tolerava a escravidão, já o comunismo não tolera nem a exploração assalariada. Mas ambas as formas de exploração são relações sociais de produção, cuja transformação exige grandes movimentos na sociedade. Não se trata de pecados individuais, passíveis de penitências. O cristianismo planejava salvar os que a ele se unissem, por meio do convencimento individual, similar à crença de que se pode transformar o mundo transformando primeiro os indivíduos. Já para o marxismo as sociedades são complexas e os indivíduos são por ela condicionados, ou seja, fazem a história mas não como a desejam. Assim o marxismo concluiu que não se pode realmente melhorar as pessoas apenas individualmente, mas somente transformando a sociedade. Por isso o cristianismo exigia dos cristãos o modo de vida piedoso acima citado, enquanto os Partidos Comunistas só pregam a luta dos trabalhadores por uma sociedade mais justa. Os comunistas não são monges que pretendem, pelo seu exemplo, uma sociedade baseada na pobreza igualitária, mas militantes que defendem a socialização dos meios de produção e da riqueza produzida.

O cristianismo primitivo era de mártires pacifistas, resultantes da crença na vida eterna. Os marxistas admitem a violência apenas diante da violência primeira das classes dominantes. Inicialmente buscam a via pacífica, não usando da força senão pelas necessidades da luta dos trabalhadores. Um pequeno exemplo disso foi o do PCB em meados dos anos 1970, sob a ditadura militar, que, mesmo diante da tortura e assassinato de dois terços do seu Comitê Central, não apelou para a luta armada. A violência revolucionária não é gratuita ou passional, mas a, segundo Marx, por vezes necessária, “parteira [da] velha sociedade que se encontra grávida de uma nova”.

O marxismo e as igrejas cristãs surgem influenciados pelo patrimônio ético do antigo cristianismo. Porém, as respostas encontradas para compreender e atuar na sociedade variam muito. Desde as igrejas mais hierarquizadas e, mesmo, mercantis, justificadoras intransigentes da sociedade de classes, passando por cristãos mais críticos das injustiças sociais, até a proposta radical dos comunistas de superação da sociedade de classes e da emancipação do conjunto da humanidade. Nas intenções de justiça, paz, liberdade e solidariedade estão as semelhanças entre Cristo e Marx, e o comunismo e as idéias religiosas só se excluem e se opõem quando a religião serve à preservação da exploração e da dominação.


Obs: Esse texto foi publicado originalmente no número 2 do São João del-Pueblo de papel, em Dezembro de 2009.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Palestina!

Palestina Livre!
Essa luta é de todos nós.
(Nota Política do PCB)
O próximo dia 27 de dezembro marca um ano da invasão genocida do Estado de Israel à Faixa de Gaza, que destruiu toda a infraestrutura da região, saneamento, distribuição de água e eletricidade, comunicação e rodovias, além de escolas, creches, hospitais, dezenas de milhares de residências e centenas de prédios públicos.
A insana investida israelense ocorreu às vésperas da posse do então recém eleito presidente dos EUA, Barack Obama, candidato pelo Partido Democrata, que, durante a campanha, havia prometido uma mudança radical na política externa norte- americana, incluindo a retirada das tropas estadunidenses do Iraque e do Afeganistão, além do reconhecimento do Estado Palestino e do fim dos conflitos na região.
Passado um ano, nada disso ocorreu. Ao contrário, o que se vê é justamente o recrudescimento da agressividade imperialista na região do Oriente Médio.A população da Faixa de Gaza foi submetida a um dos maiores ataques por terra e ar desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Mais de uma tonelada de bombas foram despejadas por dia sobre um povo indefeso, em condições desiguais para combater.
Além dos ataques militares, Israel aumentou o cerco a Gaza, proibindo a entrada de remédios e alimentos durante dias, o que agravou sobremaneira a condição de penúria do povo palestino, vítima de um verdadeiro genocídio.Até hoje, diversos hospitais operam em condições precárias, falta distribuição de água em várias partes de Gaza e o embargo a diversos produtos de primeira necessidade ainda continua nas fronteiras policiadas por Israel.
De tudo o que se tentou destruir, a única coisa que não se abalou foi a determinação do povo palestino em resistir heroicamente, como tem feito há décadas contra a invasão israelense, promovida e apoiada pelo imperialismo, sobretudo o norte-americano.
A cada dia que passa cai mais a máscara de Obama, cujas promessas de campanha para o Oriente Médio não passaram de palavras ao vento: mantém-se o processo de opressão e o quadro de instabilidade na região. Acima do discurso fácil de campanha eleitoral, estão os interesses das grandes empresas bélicas e do petróleo, que de fato mandam na Casa Branca e operam as ações no Oriente Médio.
Nós do PCB sempre estivemos ao lado dos povos que lutam contra a opressão e o domínio imperialista em seus territórios. Estivemos ao lado do povo palestino em todos os momentos mais difíceis da sua resistência e luta política e não será diferente enquanto não se conquistar a autonomia do Estado Palestino.
Conclamamos toda a nossa militância e as organizações internacionalistas a promoverem atos de solidariedade aos povos do Oriente Médio que lutam contra as ocupações e imposições imperialistas e, em especial ao povo palestino que, a cada ataque, a cada ação fascista do Estado de Israel e dos EUA, nos dão uma lição de heroísmo, resistência e persistência pelo direito de viver em sua terra, com paz, liberdade e dignidade.
Comitê Central do PCB.
Dezembro de 2009.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

REFORMA AGRÁRIA


Conheça os inimigos da Reforma Agrária

14 de dezembro de 2009
Do Jornal Sem Terra
Depois de conseguir emplacar a CPMI contra a Reforma Agrária, os setores mais conservadores do Congresso Nacional passaram a escalar o seu time de parlamentares. Foram convocados inimigos do povo brasileiro para atuar na CPMI e nos bastidores. Esses parlamentares têm como características o ódio aos movimentos populares e o combate à Reforma Agrária e às lutas sociais no nosso país.São fazendeiros e empresários rurais, que foram financiados por grandes empresas da agricultura e colocaram seus mandatos a serviço do latifúndio e do agronegócio. Nas costas, carregam denúncias de roubo de terras, desvio de dinheiro público, rejeição à desapropriação de donos de terras com trabalho escravo, utilização de recursos ilícitos para campanha eleitoral, devastação ambiental e tráfico de influência.
Essa CPMI faz parte de uma ofensiva desses parlamentares, que tem mais três frentes no Congresso. Até o fechamento desta edição, os nomes dos parlamentares indicados para a CPMI contra a Reforma Agrária já tinham sido lidos, mas os trabalhos não tinham começado. A CPMI pode se arrastar até junho de 2010. O Jornal Sem Terra deste mês de dezembro (nº 299) apresenta os deputados e senadores que estão na linha de frente na defesa dos interesses da classe dominante rural.
KÁTIA ABREU / Senadora (DEM-TO) / Suplente na CPMI
• Formada em psicologia.• Presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), eleita em 2008 para três anos de mandato. Foi presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (1995-2005).• Dona de duas fazendas improdutivas que concentram 2.500 hectares de terras.• Apresentou 23 projetos no Senado e apenas três foram aprovados, mas considerados sem relevância para o país, como a garantia de visita dos avós aos netos.• Torrou 60% das verbas do seu gabinete com propaganda (R$ 155.307,37).• É alvo de ação civil do Ministério Público na Justiça de Tocantins por descumprir o Código Florestal, desrespeitar povos indígenas e violar a Constituição.• Integrante de quadrilha que tomou 105 mil hectares de 80 famílias de camponeses no município de Campos Lindos (TO). Ela e o irmão receberam 2,4 mil hectares com o golpe contra camponeses, em que pagaram menos de R$ 8 por hectare.• Documentos internos da CNA apontam que a entidade bancou ilegalmente despesas da sua campanha ao Senado. A CNA pagou R$ 650 mil à agência de publicidade da campanha de Kátia Abreu.
RONALDO CAIADO / Deputado Federal (DEM-GO)
• Formado em Medicina.• Foi fundador e presidente nacional da União Democrática Ruralista (UDR).• É latifundiário. Proprietário de mais 7.669 hectares de terras.• Dono de uma fortuna avaliada em mais de R$ 3 milhões• Não teve nenhum dos seus 19 projetos aprovados no Congresso. • É investigado pelo Ministério Público Eleitoral por captação e uso ilícito de recursos para fins eleitorais. Não declarou despesas na prestação de contas e fez vários saques “na boca do caixa” para o pagamento de despesas em dinheiro vivo, num total de quase R$ 332 mil (28,52% do gasto total da campanha).• Foi acusado de prática de crimes de racismo, apologia ou instigação ao genocídio por classificar os nordestinos como “superpopulação dos estratos sociais inferiores” e propor um plano para o extermínio: adição à água potável de um remédio que esterilizasse as mulheres.
ABELARDO LUPION / Deputado federal (DEM-PR) / Titular na CPMI
• É empresário e dono de diversas fazendas (três delas em São José dos Pinhais).• Foi fundador e presidente da União Democrática Ruralista do Paraná.• É um dos líderes mais truculentos da bancada ruralista na Câmara dos Deputados.• Faz campanha contra a emenda constitucional que propõe a expropriação de fazendas que utilizam trabalho escravo.• Apresentou somente cinco projetos no exercício do mandato. Nenhum foi aprovado.• Sua fortuna totaliza R$ 3.240.361,21.• Fez movimentação ilícita de R$ 4 milhões na conta bancária da mãe do coordenador de campanha. É réu no inquérito nº 1872, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), por crime eleitoral.• Sofre duas representações por apresentar - em troca de benefícios financeiros – uma emenda para as transnacionais Nortox e Monsanto na Câmara, liberando o herbicida glifosato.• A Nortox e a Monsanto financiaram a sua campanha em 2002. A Nortox contribuiu com R$ 50 mil para o caixa de campanha; já a Monsanto vendeu ao parlamentar uma fazenda de 145 alqueires, por um terço do valor de mercado.• Participou de transação econômica fraudulenta e prejudicial ao patrimônio público da União em intermediação junto à Cooperativa Agropecuária Pratudinho, situada na Bahia, para adquirir 88 máquinas pelo valor de R$ 3.146.000, das quais ficou com 24.• Deu para parentes a cota da Câmara dos Deputados, paga com dinheiro público, para seis voos internacionais para Madri e Nova York.
ONYX LORENZONI / Deputado Federal (DEM-RS) / Titular na CPMI
• Formado em medicina veterinária. É empresário.• Membro da “Bancada da Bala”, defendeu a manutenção da venda de armas de fogo no Brasil durante o referendo do desarmamento.• Gastou 64,37% da verba do seu gabinete com propaganda (R$ 230.621• Campanha financiada por empresas como a Gerdau, Votorantin Celulose, Aracruz Celulose, Klabin e Celulose Nipo.• Teve apenas um projeto aprovado em todo o seu mandato.
ALVARO DIAS / Senador (PSDB-PR) / Titular na CPMI
• Formado em história. É proprietário rural.• Foi presidente da CPMI da Terra (2003/2005), que classificou ocupações de terra como “crime hediondo” e “ato terrorista”.• Não colocou em votação pedidos de quebra de sigilos bancários e fiscais de entidades patronais, que movimentaram mais de R$ 1 bilhão de recursos públicos. Não convocou fazendeiros envolvidos em ações ilegais de proibição de vistorias pelo Incra.• Divulga na imprensa de forma ilegal fatos mentirosos sobre dados sigilosos das entidades de apoio às famílias de trabalhadores rurais para desmoralizar a luta pela Reforma Agrária.• Não declarou R$ 6 milhões à Justiça Eleitoral em 2006. O montante é referente à venda de uma fazenda em 2002.
LUIS CARLOS HEINZE / Deputado Federal (PP-RS)
• Formado em engenharia agrônoma.• É latifundiário. Dono de diversas frações de terras, totalizando 1162 hectares.• Fundador e primeiro-vice-presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (1989-1990). • Seus bens somam mais de R$ 1 milhão.• Nenhum dos seus projetos foi aprovado durante esta legislatura.• Campanha foi financiada pela fumageira Alliance One, responsável por diversos arrestos irregulares em propriedades de pequenos agricultores.• Defendeu o assassinato de três fiscais do trabalho em Unaí (MG), declarando que “os caras tiveram que matar um fiscal, de tão acuado que estava esse povo...”, justificando a chacina promovida pelo agronegócio (2008).• É contra a regularização de terras quilombolas (descendentes de escravos), que representaria, para ele, “mais um entulho para os produtores rurais”.
VALDIR COLATTO / Deputado Federal (PMDB/SC)
• Formado em engenharia agrônoma. Proprietário rural.• Foi superintendente nacional da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) (2000-2002).• Foi superintendente estadual do Incra em Santa Catarina (1985- 1986) e secretário interino da Agricultura de Santa Catarina (1987).• Desapropriou área de 1.000 hectares para fins desconhecidos na mata nativa quando presidiu o Incra, causando prejuízos de R$ 200 milhões para o poder público.• Apresentou projeto que tira do Poder Executivo e do Poder Judiciário e passa para o Congresso a responsabilidade pela desapropriação de terras por descumprimento da função social. • É contra a demarcação das terras indígenas e quilombolas.• Autor do projeto que transfere da União para estados e municípios a prerrogativa de fixar o tamanho das áreas de proteção permanente nas margens dos rios e córregos. Com isso, interesses econômicos locais terão maior margem para flexibilizar a legislação ambiental e destruir a natureza.• É um dos pivôs de supostas irregularidades envolvendo o uso da verba indenizatória na Câmara dos Deputados.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Vitória do PC do Chile!

O Partido Comunista Chileno comemora a eleição de três deputados ao parlamento nacional do Chile. A eleição dos deputados comunistas combinada com a expressiva votação de Jorge Arrate marcam a retomada da esquerda chilena, construindo novos caminhos.

O Partido Comunista elegeu três deputado: Hugo Gutiérrez (27492 votos) , Lautaro Carmona (16852 votos) e Guilhermo Tellier (48886 votos). Desde a ditadura militar (1973-1990), a mais sangrenta da América Latina, o sistema político chileno favorece a votação binominal (dos dois principais blocos políticos), na escolha dos representantes para o parlamento e ao senado.
A estratégia eleitoral dos comunistas chilenos foi a seguinte: construiram com outras correntes socialistas e revolucionárias o agrupamento (coligação) Junto Podemos Más lançando a candidatura presidencial de Jorge Arrate (Líder da esquerda socialista chilena) reunindo em torno deste projeto extraparlamentar várias organizações populares, socialistas e revolucionárias e no tocante a tática eleitoral fizeram um acordo político com setores do campo político Concertação (que envolve principalmente o Partido Socialista e o Partido Democrata Cristão) o que viabilizou a eleição dos deputados do Partido Comunista Chileno evitando a exclusão da esquerda chilena do parlamento uma das várias trincheiras de lutas dos comunistas.
Para o segundo turno (segulta volta) os comunistas junto com seus aliados do Junto Podemos Más apresetaram um programa para o candidato da centro esquerda Eduardo Frei, evitando a idéia da adesão automática a candidatura social-liberal de Frei e sinalizando a importância da derrota da candidatura liberal-conservadora do bilionário Piñera.
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Duas considerações importantes sobre as eleições no Chile, que podem servir de exemplo para a esquerda no Brasil:
I - Não podemos cair na falsa discussão da polarização entre os dois blocos liberais - de um lado um bloco social liberal ou seja um governo liberal com um verniz social e de outro um bloco conservador.
A apresentação de uma candidatura que seja expressão política do programa de uma frente anti-capitalista e anti-imperialista no primeiro turno é fundamental.
A priori seria um erro substituir o debate programático pela discussão covarde "do menos pior" ou inverter o debate programático pelo debate personalista, como fazem algumas correntes da esquerda socialista.
II - A eleição de parlamentares comunistas é fundamental.
Os comunistas sabem que não vai ser pela via democracia liberal burguesa que iremos trilhar o caminho "brasileiro" para o socialismo.
As eleições de 2010 podem alterar a correlação de forças, favorecer a retomada das mobilizações sociais e populares, possibilitar um crescimento qualitativo e quantitativo da esquerda e criar elementos político para a formação de um pólo alternativo de forças políticas e sociais na perspectiva história da construção de um Bloco Proletário e Popular.
Parlamentares comunistas farão diferença na luta dos trabalhadores e da juventude pelo socialismo.
Professor Túlio Lopes

domingo, 13 de dezembro de 2009

Eleições no CHILE

CHILE: a reta final das eleições

Eduardo Contreras
El Siglo.cl


Os cães de guarda da direita estão soltos, a matilha late forte, indignados com os avanços da justiça e não entendem que, como continuará a acontecer por anos, os ecos da morte da ditadura não se apagarão e enquanto houver neste país um coração justo, a luta pela verdade e pela justiça não se deterá.

A direita está desesperada e os meios de comunicação que controlam desenvolvem a teoria macabra de o que aconteceu em matéria de direitos humanos nada mais é do que uma “manobra eleitoral”. A burguesia é incapaz de perceber o profundo sentimento de amor e de justiça que estava presente na alma dos milhares de pessoas que acompanharam Victor Jara no seu histórico funeral. Os reacionários não têm alma, têm carteiras. Seus pasquins, rádios e TV minimizaram a magnitude do Adeus ao grande criador e revolucionário.

Agora a direita qualifica de "aproveitamento político" o julgamento de alguns dos assassinos de Frei Montalva (pai do atual candidato Frei Tagle-Riuz), como se o juiz fosse obrigado a aguardar o resultado das eleições deste domingo para decidir se julgado ou não. Agora falta que os civis culpados também respondam. Sergio Fernandez era o ministro do Interior na época e a DC anuncia ser parte. Ética e juridicamente deve-se dirigir o processo criminal contra os autores intelectuais do crime. Esperamos tenham a coragem de encarar a Fernandez.

Na semana passada, foram presos vários oficiais da reserva da marinha e dos Carabineiros por crimes cometidos no navio da morte, "La Esmeralda" (veleiro usado como navio escola), incluindo os vice-almirantes Mackay, Barra, Riesco e Lopez. Quando os policias da Brigada de DDHH da PDI os conduziam ao interior do Tribunal um repórter de uma rádio local perguntou, ao vivo, ao outrora poderoso vice-almirante Mackay a sua posição sobre estas decisões judiciais. O réu respondeu: "Um saco!”. Sua resposta não foi elegante, mas foi sincero. Os torturadores do passado e seus cúmplices da direita não suportam ser julgados, pois mais leve que seja a mão dos tribunais. Covardes como o são, amam a impunidade.

Tudo isto acontece a algumas horas da eleição, em uma campanha eleitoral em que as questões importantes, como o das Forças Armadas e os Direitos Humanos, não foram tratados com a profundidade necessária. Na realidade, ficaram à margem e estiveram ausentes dos discursos. E se trata de assuntos de futuro e de alta incidência na estabilidade democrática do país. Como também é o tema do Museu da Memoria, uma boa iniciativa, mas com um desenvolvimento cheio de interrogações. O que fazem ai os representantes da direita? Por que não uma há ninguém das organizações de direitos humanos, ou parentes das vítimas ou das forças que sofreram as violações e que lutaram pela democracia?

Por que o nepotismo nos cargos e até executivos “vitalícios” pagos por todos os chilenos? Para onde aponta o palácio de La Moneda? Por que não fazem parte os representantes internacionais dos direitos humanos? Por que a presidenta diz que ali poder-se-á ver criticas ao socialismo real? Bem, e da ditadura de Pinochet, o quê? Ou se trata de fazer algo morno que não incomode a delicada epiderme das Forças Armadas? Falar-se-á ali da resistência popular contra a tirania, os protestos ou o heroísmo da FPMR, ou isso foi "terrorismo"?

Mostrarar-se-ão realmente os crimes e roubos dos golpistas de 73? Haverá um espaço para Sola Sierra, para Gladys Marín, para o padre Maroto, para Clotário Blest, para Sebastian Acevedo, para o sacerdote Aldunate e outros homens da igreja como ele, ou para os advogados como Andrés Aylwin, José Galiano, ou Chela Alvarez?

Não resgatar a história real será um insulto às vítimas. Deve-se ter em conta nestas horas e especialmente no domingo. Os setores que apoiam a candidatura de Piñera são os mesmos que apoiaram a ditadura. São aqueles que estavam por trás da mão que disparou contra Victor, ou das que torturaram no La Esmeralda, ou da que se dispôs matar a Frei Montalva. Somente a esquerda, a única que existe, e seu candidato Jorge Arrate, representam toda a honra da luta pelo respeito aos direitos humanos e para impedir o retorno do pinochetismo ao poder político.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Entrevista com Pablo Lima, autor do livro "Ferrovia, sociedade e cultura: 1850-1930", e membro do CR do PCB/MG


Argvmentvm Editora (AE): Por que a escolha da ferrovia como tema central deste livro?


Pablo Luiz de Oliveira Lima (PLOL): A história ferroviária é um tema de interesse para mim por motivos pessoais e acadêmicos. Pessoais, porque sou de uma pequena cidade que veio a existir devido à construção da estação de Urubu, na Estrada de Ferro Goiás, em 1913. Com a falência desta empresa ferroviária, em 1920, ela foi leiloada e adquirida pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, empresa estatal. Neste contexto, a estação de Urubu recebeu um novo e mais poético nome: Campos Altos. Em torno da estação, cresceu um povoado com a migração de habitantes das regiões rurais mais próximas, como meus avós, e em 1944 foi criado o município. Ainda hoje, a mesma ferrovia atravessa a cidade, travessia que completará 100 anos em breve. No entanto, a atual empresa concessionária não transporta passageiros, situação que vem desde o início dos anos 1980. O interesse acadêmico surgiu durante o curso de graduação em história, pois percebi apequena produção de pesquisa histórica sobre o assunto em Minas Gerais. Assim, fiz meu mestrado sobre o tema da história ferroviária no Programa de Pós-Graduação em História da UFMG, entre 2001 e 2003. Meu livro é uma versão levemente modificada da dissertação.


AE: O senso comum, geralmente, associa o termo ferrovia a aspectos econômicos; no entanto, sua abordagem privilegia sociedade e cultura. Quais são as implicações desse tipo de análise?


PLOL: A economia não está dissociada da sociedade e da cultura. Talvez um dos principais problemas da ciência econômica seja a negligência em relação a questões culturais e sociais que são afetadas ou influenciadas pela economia. Da mesma maneira, os estudos sobre fenômenos culturais e sociais não podem deixar de considerar as dimensões econômicas da realidade. Acredito que seja hora de os historiadores que atuam no campo da história cultural e social, assim como de os economistas que se interessam pela cultura, propor o conceito de “cultura econômica”, no mesmo sentido em que os historiadores da política trabalham com o conceito de “culturas políticas”. A cultura econômica é o conjunto de valores culturais que sustentam e justificam as práticas econômicas. No século XIX, havia uma cultura econômica que acreditava na industrialização da produção e circulação de mercadorias como o caminho inevitável para se alcançaro desenvolvimento. Era uma cultura que se guiava pelo sentimento evolucionista, que na linguagem econômica se traduzia em uma tensão entre o atraso e o progresso. Até o século XVIII não havia isto. O Brasil só ficou “atrasado” após a Revolução Industrial, quando passou a ser comparado com as nações industrializadas da época. E nossos governantes, desde então, buscam a “ordem e progresso”.


AE: Quais foram suas fontes de pesquisa?


PLOL: Para compreender o ambiente cultural do século XIX pesquisei em obras de memória de estrangeiros e brasileiros que deixaram registros sobre os transportes no Brasil, antes e depois da ferrovia. Para acompanhar os debates entre as autoridades políticas, analisei a memória oficial da província e do estado de Minas Gerais contida nos discursos dos chefes do executivo ao poder legislativo. E, para alcançar a dimensão do trabalho, busquei fontes diversas que representam os trabalhadores em seu dia a dia, como matérias de jornais da época, fotografias, relatórios das empresas e depoimentos de ex-ferroviários entrevistados durante o processo de pesquisa.


AE: É possível delinear os períodos de “início, auge e declínio” das ferrovias no Brasil?


PLOL: Sim. Entre 1835 e 1854, foram realizados os primeiros projetos e aprovadas as primeiras leis sobre ferrovias no Brasil. Mas a primeira empresa foi inaugurada pelo Barão de Mauá em 1854. Desse ano até 1930, o Brasil viveu o período de construção da maior parte da nossa malha ferroviária dentro de uma cultura liberal, o que significa que não houve um planejamento eficiente, levando muitas empresas à falência e à estatização. Com o governo Vargas, a partir de 1930, a malha ferroviária foi estatizada e centralizada em redes ferroviárias estaduais. O período entre os anos 1930 e 1960 marcou o auge do transporte ferroviário no Brasil. Nesse período, a ferrovia era o principal meio de transporte de pessoas e mercadorias. Em 1958, no governo de Juscelino Kubitscheck, foi criada a Rede Ferroviária Federal S.A., centralizando toda a malha nacional. Neste momento a malha nacional contava com cerca de 38 mil quilômetros de linhas férreas.Mas, após o Golpe Militar de 1964, que também foi apoiado por setores civis da sociedade, o transporte ferroviário foi colocado em segundo plano em relação ao transporte rodoviário. Durante a ditadura militar, nossa malha ferroviária foi abandonada ao ponto de retroceder à extensão da década de 1920 em 1983, ou seja, a cerca de 25 mil quilômetros de extensão. Em 1996 o setor ferroviário foi privatizado, voltando à era liberal. A este retorno ao liberalismo e à ausência de planejamento estatal denominamos neoliberalismo. Hoje estamos vivendo um momento de estagnação, o que é melhor que a retração da ditadura militar, mas sem avanços significativos e ainda sem o retorno do transporte de passageiros. Considero absurdo o fato de os cidadãos de hoje não poderem optar pela ferrovia para viajarem entre as cidades do país, estando limitados às rodovias ou ao transporte aéreo. Que capitalismo é este em que vivemos, que retira opçõesdos consumidores? Por causa desta inquietação decidi buscar conhecer melhor esta história, que é a história do capitalismo brasileiro, muito diferente do capitalismo da Europa ocidental e da América anglófona.


AE: Quais foram as principais concepções acerca do papel da ferrovia no Brasil?


PLOL: No século XIX havia um grande debate sobre o lugar da ferrovia no país. Havia aqueles que defendiam a ferrovia como um instrumento necessário ao progresso, mas isto não era unanimidade. Muitos duvidavam. Entre os que acreditavam na ferrovia, havia pelo menos dois grupos: um que defendia a ferrovia com o meio de ligação entre cidades já existentes e economicamente importantes, e outro que defendia a ferrovia como meio de integrar regiões sertanejas, desabitadas ou pouco habitadas e com pouca atividade econômica, fazendo com que se ligassem aos grandes centros urbanos e ativando, assim, as economias regionais.


AE: A Estrada de Ferro Oeste de Minas e Estrada de Ferro Goiás modificaram as condições socioeconômicas das regiões em que foram instaladas?


PLOL: Sim, para o bem e para o mal. Facilitaram e dinamizaram o transporte e a comunicação entre as regiões ligadas pelo trem. Contribuíram muito para o escoamento da produção cafeeira, estimulando o aumento da produção. Mas desagregaram os sistemas de transportes tradicionais, como o fluvial e as rotas de carros de bois, inundando os sertões com produtos industrializados e levando as pequenas indústrias, como a tecelagem tradicional, à falência. Criaram-se também cidades-fantasmas, cujas populações foram atraídas por estações ferroviárias, como foi o caso dos moradores de São Jerônimo dos Poções, que migraram quase totalmente para Campos Altos, a 18 quilômetros, porque ali passava a ferrovia.


AE: O que podemos saber a respeito da ação dos ferroviários na implantação do desse sistema de transporte através das fontes que analisou?


PLOL: O principal é que havia diversas categorias de ferroviários. As companhias ferroviárias inauguraram a hierarquia administrativa moderna no Brasil. Havia os engenheiros e diretores das empresas, graduados em engenharia no Brasil ou exterior, homens altamente qualificados e com ligações diretas com a elite econômica e política. Havia os funcionários mais qualificados, engenheiros práticos, agentes de estações, maquinistas, que figuraram entre os primeiros trabalhadores necessariamente livres em um país escravista. E havia todos os trabalhadores braçais, pedreiros, carregadores, entre os quais muitos eram escravos, e cuja história foi pouco registrada pelos documentos que encontrei.


AE: Você pode comentar a seguinte passagem do livro: “... o trem de ferro, em sua passagem pelo Brasil, foi levado a atravessar a fronteira entre o essencial e o efêmero, passando de símbolo do futuro a sombra do passado.”?


PLOL: Eu quis dizer que a ferrovia já foi o que havia de mais moderno no cenário econômico e cultural do país, mas hoje a situação é diferente. Grande parte do transporte de mercadorias in natura, como grãos e minerais, continua a ser realizado por ferrovias. Mas não há mais transporte de passageiros, com exceção de alguns trechos administrados pela Vale. O Brasil possui a 11a malha ferroviária mais extensa do mundo, mas ela é menor que as da Argentina, França, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, etc. Hoje não há mais uma associação entre ferrovia e modernidade no imaginário social brasileiro, apesar de recorrentes discursos de políticos sobre a “volta da ferrovia” ou as vantagens do “trem bala”. A população ficou só com a memória e com um grande número de estações desativadas que assombram cidades por onde os trens um dia carregaram pessoas, sentimentos, amores, saudades...


AE: Podemos falar em um “patrimônio ferroviário” no Brasil hoje? Como ele se apresenta?


PLOL: Sim. Em meu livro fiz uma análise sobre a situação do patrimônio cultural ferroviário em Minas, que oscila entre casos de abandono e de preservação. O patrimônio ferroviário é composto por edificações (estações, casas de mestres de linha, edifícios administrativos, vilas operárias, oficinas, rotundas) e por um grande volume de documentos textuais, iconográficos e fotográficos, espalhados pelo país. Há ainda uma multidão de ex-ferroviários, muitos que foram aposentados compulsoriamente durante a privatização do setor em 1996, e que têm o principal patrimônio: a memória viva da era do trem.


AE: A ferrovia pode ser uma alternativa para o sistema de transporte no Brasil hoje? Quais seriam as medidas necessárias para que ele se efetivasse?


PLOL: Eu, não apenas como pesquisador, mas como cidadão, acredito que sim. E creio também que a principal medida seria fazer algo que nunca foi feito antes no Brasil, neste setor: consultar a sociedade sobre o que ela pensa em relação às ferrovias. Se a sociedade brasileira for consultada pelo Estado, poderemos saber o que ela pensa. E, se a maioria da população quiser a revitalização do transporte ferroviário e o retorno do transporte de passageiros, isto deveria ocorrer. Afinal de contas, não diz a Constituição de 1988 que todo o poder emana do povo? Então, por que não consultar a população sobre este e muitos outros assuntos que afetam a vida da sociedade como um todo? E por que não realizar obras que atendam diretamente às demandas reais da população? Talvez meu livro ajude um pouco a levantar estas questões sobre a cultura econômica do nosso tempo presente.


Programas Futebol e Política do Canal do Jornal O Poder Popular.

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