Entrevista concedida à Hernán Camacho para a 'Alianza de Medios y Periodistas por la Paz'
Qual sua avaliação, depois de fazer seu
próprio balanço, desta primeira etapa dos diálogos de Havana entre o
governo de Juan Manuel Santos e a guerrilha das FARC-EP?
“É um balanço positivo, sem exageros.
Está demonstrado que é possível sentar-se para dialogar em uma mesa pela
paz, apesar das diferenças e escassas coincidências entre as duas
partes. Ainda que não haja resultados concretos conhecidos do primeiro
ponto em debate (o tema agrário), ganhou-se a participação cidadã. Ainda
que o governo fosse relutante a ele, no final foi uma conquista
democrática e o resultado é bom, pois agremiações e organizações
populares debateram e fizeram propostas que não poderão ser ignoradas.
Assim, o balanço é positivo ainda que existam barreiras e obstáculos”.
Como quais?
“Continua sendo um erro dialogar em meio
ao conflito. Deseja-se um cessar fogo bilateral para evitar que os atos
da guerra alterem a boa marcha do processo. Mas além disso o governo
está fechado à participação popular, segue entendendo-a como um 'ruído'
na mesa e isso é negativo, porque a mesa deve ser legitimada com a
participação da sociedade, pois estão sendo discutidos temas de
interesse nacional e não particular. O governo também tem um conceito
estreito da agenda. Fez um Acordo Geral e agora quer desconhecê-lo,
porque crê que o modelo não pode ser mudado e que a democracia é
perfeita. São barreiras que dificultam avançar em bom ritmo e na direção
correta”.
O doutor De la Calle disse, ao término
das seções deste ano, na data de hoje, que não haverá mudança do modelo
econômico nem do sistema democrático.
“Aí está a barreira. O que querem mudar
então? No tema agrário acreditam com arrogância que estão fazendo uma
revolução agrária e que as FARC e o povo devem apoiar a lei de terras e
suas políticas agrárias que não vão ao fundo de problemas substanciais,
como a posse da terra, o latifúndio, o uso do solo e até as situações
que afetam o território e as regiões agrárias, como a exploração
mineiro-energética que estão nas mãos de transnacionais inescrupulosas. E
acreditam que a democracia é plena. Querem obrigar-nos a viver com a
para-política, a violência desde as alturas do poder, a exclusão, o
clientelismo e o oportunismo dominante”.
Mas na Colômbia há eleições, sufrágio universal aceitável...
“Aceitável para quem? Para a classe
dominante, para a política tradicional que detém o poder ao largo da
história republicana depois de Simón Bolívar. São eleições à colombiana,
sob as condições e as vantagens da oligarquia dominante. Por isso temem
as reformas, não aceitam modificar as regras da política, porque são
suas regras”.
De acordo com você, por que temem a democracia?
“Porque o dia em que haja nesse país
democracia plena e direitos para todos, igualdade perante a constituição
e a lei, o poder vacilará. É um problema de classe. A classe dominante
prefere a violência porque lhe permite impor a 'sangue e fogo' seus
desígnios. Disseram-no de forma aberta e pública. Por isso, não
consideram conveniente mudar esse sistema político imposto à força. É
decepcionante escutar alguém da burguesia – que acredita-se que seja
decente – defender ao extremo o governo de Álvaro Uribe Vélez, por
exemplo, e até o qualificarem de segundo libertador da Colômbia, fazendo
omissão aos 'falsos positivos', às chuzadas, a proteção ao
narco-para-militarismo, à para-política, à corrupção e outros atos
vergonhosos. Parece-lhes um bom personagem porque defendeu a sangue e
fogo seus interesses econômicos. O modelo econômico, por certo em crise
no mundo, consideram inalterável, pois permite-lhes enormes utilidades e
lucros às custas do sacrifício do povo”.
Contudo há ex-guerrilheiros na política e na administração...
“Sim, são gestos pluralistas e
democráticos na aparência. Mas na realidade se espalha a intolerância
aos movimentos sociais e partidos que eles representam, são cooptados na
melhor das hipóteses ou perseguidos com fúria como está acontecendo com
Gustavo Petro, prefeito de Bogotá. Ele apenas tocou nos calos dos
negócios dos poderosos, colocou como fundamental o interesse público e
afetou o lucrativo negócio particular do lixo, e vieram para cima dele, e
de que maneira: querem tirá-lo. A campanha midiática é grosseira e
antidemocrática. Veja a 'grande imprensa' como o ataca sem nenhum
respeito. É um problema de classe, algo que a classe trabalhadora deve
entender. A oligarquia estimula a sua divisão, quando ela se une para
defender seus interesses. Isso deve mudar se a intenção é a paz. Do
contrário, será difícil atingi-la”.
Mas voltemos aos fóruns, com a experiência do fórum agrário. Eles são válidos como mecanismo de participação?
“São válidos, claro que sim. A
experiência deve se repetir nos pontos seguintes. Como também são úteis
as mesas regionais promovidas pelas comissões de paz do Senado e da
Câmara de Representantes. É que sem a participação cidadã e popular não é
possível chegar à paz. Esta se constrói com a participação de todos e
todas. De alguma maneira a paz deve ser imposta a seus inimigos e aos
cavaleiros da inércia que interpõem as barreiras”.
No fórum agrário participaram as agremiações. Como foi isso?
“Bom e positivo. Entre outras coisas, em
suas manifestações os porta vozes da Andi e da Sac, por exemplo,
demonstraram mais realismo e amplitude que o Governo Nacional. Escutaram
com atenção as propostas e análises das organizações sociais e
populares. Ficaram isoladas as posições ultradireitistas e guerreiristas
da Fedegan, que representam o setor mais comprometido com o latifúndio e
a violência. Sabemos muito bem porque se opõem a paz.”
Por que?
“Porque representam o uribismo
recalcitrante que é o setor mais descomposto da classe dominante;
apoiam-se no terror, na guerra. Na carta da Fedegan, publicada nos meios
escritos há alguns dias, há algumas assinaturas que produzem terror,
são os que promoveram o para-militarismo, representam associações
ligadas à violência aos camponeses e à esquerda. Não se pode esquecer
que o ex-presidente da Fedegan foi ajuizado por para-militarismo e o
atual é investigado. O que esperar desse tipo de gente?”
Como você vê as duas delegações?
“Bem, cada um cumprindo seu papel, cada
um faz seu trabalho. O importante é que se tenha sensatez e criatividade
suficiente para encontrar os pontos de convergência, não para
satisfazer ao 'outro', mas ao país, ao povo colombiano que será o maior
beneficiário da paz estável e duradoura. Ainda é indispensável que o
governo tenha uma só linha. A atitude do ministro Pinzón é provocadora,
guerreirista. É um ministro dinamite. Alguns porta-vozes do governo
dizem que ele sai do roteiro, mas ambas as partes devem ter uma só
agenda, a que seja, mas uma só, coerente e comprometida com o Acordo.
Pinzón está sobrando no governo. A não ser que se trate da velha e
desgastada tática em que uns se fazem de 'bons' e outros de 'maus'. Isso
o Governo deve deixar bem claro.”
Acredita que ao final se atinja a paz?
“É possível se há vontade política de
ambas as partes e o apoio da sociedade. No entendimento que deve ser uma
paz digna com democracia e justiça social. O Governo deve baixar-se da
nuvem da vitória, abandonar o conto de que a guerrilha está derrotada.
Não parece que a insurgência está derrotada; ao contrário o fracasso da
Segurança Democrática é o fracasso da linha militar. Só os uribistas a
defendem com obstinação. É importante o critério de mudança. O conflito
obedece a causas e enquanto elas existam não haverá paz. A democracia e a
justiça são essenciais para levar a cabo o 'Acordo Geral para o término
do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura'. Para a
esquerda a paz é indispensável, porque obrigará a unidade dos setores
democráticos e populares para que surja uma opção de poder do povo com a
capacidade de transformar a Colômbia. A paz é uma bandeira dos
revolucionários na medida em que está estreitamente ligada à construção
da nova Colômbia”.
Bogotá, dezembro de 2012.
Fonte: http://www.marchapatriotica.org/oficina-de-prensa/noticias/992-carlos-lozano-activista-de-paz-respondeTradução: CCLCP
http://www.cclcp.org/index.php/inicio-cclcp/internacional/220-carlos-lozano-ativista-da-paz
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